Meu nome é imperceptível de tão igual. Passei a despercebida nos registros. Passei a despercebida na vida. Gravidez mal alimentada. Sem planos, sem religião, sem pais, pés, pineis. Um vão cinza de vida. Sentar no escritório, comer a mesma comida, engolir as mesmas conversas e por fim não sabem nem meu nome. Sou a lâmpada apagada num painel florescente. Sou a falta que não dói. Sou o pássaro que perdeu o bando e ainda viajaram por todo oceano. Sou o deixado para trás. Sou a descrença. Sou o igual. É o que me mandaram ser. Disseram, comentaram, suplicaram e eu sem dono e nem canto, escutei. Corro no mesmo corredor. Caminho em cima das mesmas pedras. Pego o mesmo ônibus que cheira a todo mundo junto e misturado. Tenho a vida, vida vazia e apagada. Feita só de grafite, sem lápis de cor. Mas, assim, quando ninguém olha eu sussurro para mim mesma, bem baixinho: - Quem sabe amor, mesmo que com um fiozinho de dor. Quem sabe um domingo sem televisão, talvez um cinema ou olhar as cores das flores. Quem sabe menos cinza, menos drama, menos trama. Quem sabe amor, para sorrir um pouco a vida rápida, mesmo que eu nem saiba como lidar. Quem sabe a culpa mais esquecida e rir dos bordões da televisão. Quem sabe um sabiá cantando na janela para acordar. Quem sabe a gente aprenda a fazer mais do que esperar acontecer. Quem sabe papel de bala no bolso e o desgosto lançado no esgoto […] Quem sabe, o bonito aparecendo, a vida florescendo e a tristeza, mesmo que presente, não incomodando tanto. Quem sabe?
Vamos começar me nomeando.
Vamos começar me nomeando.
— A moça sem nome (via sonetosdeamor)




